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NASCIDOS CATÓLICOS

Amordaçados, sem liberdade de escolha, nascem assim, crescem assim e rumam ao inferno pensando que o purgatório existe. Enganados, seguem crendo em homens, na contramão daquela que dizem ser A Palavra de Deus.

NASCIDOS CATÓLICOS

Amordaçados, sem liberdade de escolha, nascem assim, crescem assim e rumam ao inferno pensando que o purgatório existe. Enganados, seguem crendo em homens, na contramão daquela que dizem ser A Palavra de Deus.

Na Cova da Iria

Carta ao Cardeal Cerejeira

 

“Eminência:

E cá estamos prontos a visitar essa tal Cova da Iria, onde a Igreja Católica, inspirada pela Companhia de Jesus, quis que, uma vez mais, depois de tantas, a Virgem Maria aparecesse aos pastorinhos. Esse embuste grosseiro, de que o clero com frequência lança mão, para mais eficazmente explorar e embrutecer o povo, se é realmente velho entre nós, aumentou assustadoramente com a vinda dos discípulos de Inácio de Loyola. Efectivamente, em menos de meio século de domínio, não havia em Portugal paróquia, por mais pobre e obscura, onde eles não obrigassem  a Senhora a descer do céu e dar audiência a pastorinhos ou procurar locais próprios para a edificação de santuários, onde previamente escondiam imagens dela e do menino. Essas aparições miraculosas verificavam-se umas vezes em tocas de castanheiros; outras, debaixo de uma penha; aqui, junto duma nascente; além, no alto duma montanha; mais longe, num rodelo de mato ou num campo de ortigas (Alusão à Senhora da Ortiga, em Fátima, que não vingou precisamente porque abundavam ortigas, mas faltavam nascentes.); no Sul, sob azinheiras; no Norte, entre carvalhos, etc.

 

[…] uma coisa ensombra e entristece: como houve quem os tomasse a sério? Onde estômagos que digerissem tanta palha, demais a misturada  com quanto cisco, poeiras e detritos a estupidez foi acumulando?   Que ideias fariam esses frades da mentalidade dos leitores e ouvintes dessas épocas? É certo que que alguns deles acreditavam tanto nas aparições que descreviam, como nós. Porque, vossa Emª, sendo inteligente e culto, também não pode admiti-las. Pois que: anular raciocínios, experiências e certezas, a ponto de aceitar, por exemplo, que a prioresa dum dos nossos mosteiros mandasse parar o Sol até que a comunidade concluísse as orações do coro _ «Viram que a venerável Madre lhes prognosticara, admirando todas que por mais de uma hora esteve o Sol parado, renovando-se neste prodígio as memórias de Josué» (Fr. José de Santo António - Flos sanctorum Augustiniano, primeira parte, p. 31. Em 1721, com todas licenças - do Provincial, do Santo Ofício e do Paço). _ e que outra, todas as noites jogasse às cartas com o Menino Jesus? (Vida de Maria da Purificação, escrita pelo seu confessor, Fr. Caetano do Nascimento).

 

Todavia, as crónicas monásticas e os hagiológicos estão cheios de maravilhas dessa natureza, maravilhas que hoje ninguém tem coragem de aceitar, quanto mais não seja pela baixa mentalidade que revelam. Ora, não admitindo as mil e uma aparições de Santas Mães, com que os antigos membros da Igreja portuguesa inundaram o País _ Santas que, ou já morreram, ou dormem nos seus nichos, cobertas de poeira e de teias de aranha _ como pôde estranhar que eu medisse a Senhora da Iria pela mesma bitola?  Pois, não a consideram, como as outras, esposa do Espírito Santo? Não deu também à luz o Filho do Altíssimo? Apesar de não trazer o menino ao colo, já alguém lhe negou o título de mãe? Sendo assim, por que motivo lhe dedicam tão diferente tratamento? Por que razão é que só ela tem direito a percorrer o mundo? Porque não vão também as Senhoras da Penha, da Rocha, da Nazaré _ essas e outras, todas de grande crédito e muito mais antigas? Porque as abandonaram, a ponto de muitas delas servirem apenas para esconder as ratazanas que ali criam os filhos, em ninhos feitos com os mantos de seda ou de damasco, que os antigos devotos lhes ofertaram? […]

 

Nenhum Deus, que me conste, voltou a fecundar filhas dos homens. Outro tanto, porém, não sucedeu às mães que os deram à luz, uma das quais [Sra. de Fátima] V. Emª apadrinhou e agora passeia pelo mundo, não avivando a fé ou distribuindo graças, mas em função da recolha de fundos. […] ela tanto subiu na escala do maravilhoso “cristão”, dominou tão completamente os velhos santuários, chamando assim o exclusivo milagre e tributação correspondente (porque na igreja tudo se paga, mormente a salvação das almas); e porque é hoje uma figura de projecção universal, bom é que apareça hagiógrafo que lhe ilumine o berço e celebre, não as suas andanças pelo mundo, que já todos conhecem, mas as graças que houve por bem distribuir sobre o País que a viu nascer e crescer até passar além das outras.

 

Porque esta não é das tais que antigamente desciam lá do alto, aureoladas por estrelas, entre os coros dos anjos. Como a de La Salette e a de Lourdes, também nasceu em sítio ermo, entre crianças que guardavam rebanhos, além, na tal Cova da Iria. E, como para muitos é desconhecida ainda a sua crónica, justo é que ninguém ignore a «maravilha fatal da nossa idade», que é realmente edificante. Comecemos a eito.

 

Na Cova dos Leões

Fátima - Cartas ao Cardeal Cerejeira

Tomás da Fonseca - (1877-1968)

 

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